Exclusivo: entrevista com o coordenador da Política Nacional de Humanização, Dr. Dario Pasche

A Humaniza Brasil publica entrevista exclusiva com o coordenador da Política Nacional de Humanização, Dr. Dário Pasche, um dos maiores gestores de saúde do Brasil. Pasche fala sobre a política de humanização e o imenso trabalho que coordena: uma grande rede de fazer, que resulta em mudanças precisosas na saúde pública do Brasil.

coordenador da PNH dário pasche foto divulgaçãoHumaniza Brasil: Pudemos notar a presença de gestores da saúde de todas as partes do Brasil no 2º Seminário Nacional de Humanização, que aconteceu em Brasília no início de agosto. Isto é sinal de que as propostas de humanização e acolhimento realmente se espalharam por todos os cantos do país?

Dário Pasche: Criada em 2003, pelo Ministério da Saúde, a Política Nacional de Humanização (PNH) do Sistema Único de Saúde (SUS) já está presente em todas as unidades da Federação e cerca de 300 hospitais do SUS têm algum dispositivo de humanização implantado. Além disso, há também outras unidades do SUS trabalhando com humanização, mas sem o apoio direto da equipe da PNH/MS. Durante o seminário foi possível perceber a força que esta política tem, e que vai bem além do acolhimento. Tivemos mais de 450 experiências em humanização que mostravam diretrizes do HumanizaSUS, como gestão participativa, defesa dos direitos dos usuários, valorização do trabalho e do trabalhador da saúde, clínica ampliada, entre outros.

Humaniza Brasil: A resolução dos problemas de atendimento no SUS passa necessariamente pela Política Nacional de Humanização?

Dário Pasche: A PNH recolhe e sistematiza um conjunto de pautas que foram construídas pela reforma sanitária brasileira e que compõem um ideário ético-político do SUS. Além disto, a PNH parte de experiências e inovações que o próprio SUS tem construído em duas décadas – SUS que dá certo – para constituir suas ofertas, tanto seus princípios, método e diretrizes, como dispositivos e ferramentas de trabalho. De fato, a resolução dos problemas de atendimento no SUS não passam necessariamente pela PNH, mas a política aponta caminhos para superar desafios como o acolhimento nem sempre adequado, a pouca valorização do trabalho em saúde, a não formação de vínculo entre usuários e equipes.

Humaniza Brasil: Qual é a grande dificuldade para implementação de mais ações de humanização e acolhimento nas cidades do país?

Dário Pasche: Em primeiro lugar não creio que seja possível esta separação entre humanização e acolhimento, nem tão pouco tomá-los como equivalentes. O acolhimento é uma diretriz da PNH, logo assume posição de direção clínico-política, orientando quaisquer práticas de saúde. Acolher passa a ser uma atitude, uma ética que baliza e sustenta todo contrato entre serviços/equipes/trabalhadores e usuários/rede sócio-familiar. Talvez a maior dificuldade para a consolidação da PNH como política pública seja provocada por ela própria. Explico melhor: a PNH toma como objeto de sua ação as relações de trabalho, de afeto, de saber e de poder entre sujeitos em situação de trabalho e destes com usuários. Assim, a humanização como efeito de mudança ética nas práticas de gestão e de cuidado, vai exigir reposicionamentos dos sujeitos nas relações, o que quer dizer que determinados comportamentos, atitudes, compreensões dos sujeitos e coletivos deverão ser alterados. E esta alteração implica em mudanças em campos muito sensíveis da vida e do trabalho, que passam a ser questionados e reconstruídos coletivamente. Nós nos constituímos como sujeitos também pelo trabalho e, assim, mudar as relações de trabalho exige que mudemos a nós próprios, o que pela experiência própria de cada um de nós, se sabe que não se trata de experimentação simples. Todavia, uma vez em curso tende a melhorar o trabalho, a disposição das pessoas e sua capacidade de contrair responsabilidades. Assim, a PNH lida com a cultura, com modos de organização do cotidiano do trabalho e isto, por si só, traz dificuldades de todas as ordens, pois se mexe com interesses, tradições e concepções muito arraigadas. E esta opção – começar por aí – se deve a uma convicção de que as mudanças na saúde são efetivamente capazes de se apresentarem inovadoras e sustentáveis se foram mudanças produzidas com as pessoas. E é por isto que qualificamos o método da PNH como inclusivo.

Humaniza Brasil: Como a política nacional de humanização se realiza na prática, no cotidiano de gestores, trabalhadores da saúde e usuários?

Dário Pasche: A PNH é um modo de fazer. É uma certa forma de introduzir mudanças nos modos de gerir e nos modos de cuidar em saúde. Este modo é chamado de método da inclusão: para mudar as práticas de saúde e de gestão é necessário que incluamos todas as pessoas, redes e movimentos sociais, transformando estas mudanças em resultados de processo de negociação e pactuação entre sujeitos. Um exemplo: quando nos propomos a fazer clínica ampliada, estamos convidando, permitindo a passagem nesta relação de desejos, interesses e necessidades dos usuários e de sua rede social, que cotejados com os saberes dos profissionais produzirão contratos terapêuticos que, necessariamente, serão compostos híbridos, uma mistura de ciência e vontade de investimento do próprio usuário em seu cuidado. Isto é um novo processo de comunicação e requisita dos profissionais e dos usuários deslocamentos de seus papéis tradicionais, o que é um desafio. Este modo de fazer que é a PNH (inclusão) está apontado para uma série de diretrizes, entre as quais a democratização das instituições (co-gestão), da ampliação da clínica (que incorpora a dimensões social e subjetiva; que não se reduz a ofertamentos apenas dos profissionais, mas que compõe contratos de cuidado com usuários; que permite a produção de cuidado interdisciplinar, etc), da valorização dos trabalhadores (cuidar de quem cuida; incluir trabalhador na tomada de decisão das organizações de saúde) e na defesa dos direitos dos usuários, entre outros. Mas a humanização não se reduz a um discurso, senão parte de concepções sobre o humano e sobre a política pública para interferir nas práticas de saúde e de gestão. E isto se faz com dispositivos, que são determinados arranjos de trabalho (organização do trabalho). Outro exemplo: Acolhimento com Classificação de Risco nas portas de Urgência e Emergência. Acolher é uma diretriz ética, contrato ético que os serviços assumem com a população de que todo usuário será acolhido em sua necessidade pelos serviços e equipes de saúde (esta é uma aposta). Mas esta diretriz (acolher) convoca a organização do trabalho, ou seja, deve possibilitar que se mude a forma como tradicionalmente abordamos os usuários que chegam às emergências. Assim, classificar de acordo com a gravidade do caso impõe que se considere que nem todos que chegam ao serviço têm as mesmas necessidades e que são elas que subordinam a ordem do tratamento/cuidado. Todavia, este acolher requer várias coisas, entre as quais consensos entre trabalhadores, acordos com a população, bem como discussão com a rede de saúde como um todo, pois no Brasil a maior parte das pessoas que chega às porta de urgência e emergência não se encaixam nestas definições e são, muitas vezes, demandas não acolhidas na atenção básica. Em outras palavras: humanização pressupõe exercício crítico às formas como temos cuidado das pessoas e organizado o sistema, aponta para diretrizes e aposta que as mudanças para serem efetivas devem ser acordadas e consensuadas coletivamente. Estas mudanças devem promover novas atitudes, novas éticas.

Entre no site do Ministério da Saúde e saiba mais sobre a Política Nacional de Humanização.

A Humaniza Brasil defende a Política Nacional de Humanização como ferramenta de gestão para as secretarias de saúde. Conheça mais sobre os nossos projetos ligando para (14) 8153-1885/Bauru-SP,  (61)8136-2384/Brasília-DF e  (44) 9900-2013/Maringá-PR ou mande e-mail para contato@humanizabrasil.org.br. Acompanhe a Humaniza Brasil no Twitter: www.twitter.com/humanizabrasil

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